As ciências que estudam as alterações nos processos mentais e as variações do comportamento humano sempre buscaram e continuam buscando mecanismos ou fundamentos que possam ser realmente aplicados na prática diária e, depois de analisados, gerar alguma expectativa na obtenção de soluções, caminhos ou mesmo alguma resposta para tantos questionamentos que cercam a mente e a vida do homem interior.
Venho observando com extrema cautela o comportamento das pessoas ao meu redor, e suas atitudes na vida em sociedade. Seja no ambiente corporativo, familiar, político, social, enfim, qualquer que seja o meio no qual estejam inseridas, preocupa-me a instabilidade, a ausência de propósitos, a fragilidade das personalidades, ante questões diversas que lhes são mostradas.
Todos parecem estar tomados por um senso de urgência, um imediatismo subserviente, através dos quais se manifestam em defesa de interesses de curto prazo, pontuados isoladamente e localmente, como se estivessem desconectadas do organismo social. E reparo que já fui muito utilizada neste “imediatismo subserviente”.
Há uma inversão recorrente dos valores, da ética, da moral, do caráter. As pessoas deixam de ser o que sempre foram e passam a estar o que lhes convém ou o que convém outrem por imediatismo subserviente.
A moral de um leão é comer um gnu, como a moral dos gnus é comer a grama. Este instinto animal tem inconscientemente caracterizado o comportamento humano o qual tem denotado uma moral dupla: uma que prega, mas não pratica, e outra que pratica, mas não prega.
Não são os princípios que dão grandeza ao homem, é o homem que dá grandeza aos princípios... Interessante e curioso é observar e se concretizar na sociedade, que é mais fácil lutar por princípios do que aplicá-los. É uma luta que deve ser travada diariamente com paciência e sabedoria, ajustando a palavra à ação, e a ação à palavra.
Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo, por isso, esta luta trata-se de litigar paradigmas, criar e difundir novos, não esmorecer, mesmo sentindo a mente turva.
Todos vivemos sob o mesmo céu, mas nem todos vemos o mesmo horizonte, e quando se tem o horizonte coberto de neblina, é preciso olhar para trás para manter o rumo. A vida, disse Kierkegaard, só pode ser compreendida olhando-se para trás... Mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.
Caráter é destino, disse Heráclito de Éfeso, é aquilo que fazemos quando ninguém está olhando, nossas particularidades, intimidades, o maior e mais bem guardado segredo... Nosso maior companheiro, nossa maior paixão, e por vezes nosso maior fantasma. Construído desde a mais tenra idade, simbolizando nossa maior herança, nosso maior legado.
O caráter testa-se em pequenas coisas. Um olhar, um gesto, uma palavra. Quando queremos saber de que lado sopra o vento atiramos ao ar não uma pedra, mas uma pluma. Há um provérbio dos índios norte-americanos que diz: “Dentro de mim há dois cachorros: um deles é cruel e mau, o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que alimento mais freqüentemente”.
E se caráter é destino, e o destino não é uma questão de sorte mas, uma questão de escolha, não é uma coisa que se espera, mas que se busca. O futuro de um homem está decididamente escrito em seu passado.
Não existe nada permanente, exceto a mudança. Contudo, mudar e mudar para melhor são coisas extremamente diferentes. As pessoas não resistem às mudanças, resistem a ser mudadas. É um mecanismo legítimo e natural de defesa. Insistimos em tentar impor mudanças, quando o que precisamos é cultivar mudanças.
Os homens são sempre sinceros, mas mudam de sinceridade, nada mais!
Somos o que fazemos, e o que fazemos para mudar o que somos... Percebo então que nos dias em que fazemos, realmente existimos: nos outros apenas duramos.
Segundo William James, a maior descoberta da humanidade é que qualquer pessoa pode mudar de vida, mudando de atitude. Talvez por isso a famosa Prece da Serenidade seja tão dogmática: “mudar as coisas que podem ser mudadas, aceitar as que não podem, e ter a sabedoria para perceber a diferença entre as duas”.
Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer. Nós não aprendemos nada com nossa experiência, só aprendemos refletindo sobre esta nossa experiência. Todos temos nossas fraquezas e necessidades, impostas ou auto-impostas. “Conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam”, disse François Rabelais.
Por tudo isso, é preciso tolerância. É preciso também flexibilidade. Mas é preciso fundamentalmente policiar-se. Num mundo dinâmico, é plausível rever valores, adequar comportamentos, ajustar atitudes. Mantendo-se a integridade.



